DOU 28/12/2023 - Diário Oficial da União - Brasil
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Nº 246, quinta-feira, 28 de dezembro de 2023
ISSN 1677-7042
Seção 1
quando ocorrem antes do emborrachamento. Conforme a intensidade da geada e a
sensibilidade da cultivar (nessa fase existe diferença genética bem acentuada) os prejuízos
podem ser grandes (queima de folhas, estrangulamento de colmos e morte de plantas).
O excesso de umidade pode ser limitante para o cultivo de trigo. Ambientes úmidos
predispõem a cultura ao ataque severo de doenças, particularmente fúngicas. E doenças têm
sido um dos principais entraves de natureza biótica para a região de clima úmido do sul do
Brasil. Nessa região, problemas mais severos são observados em anos de El Niño, quando as
chuvas de primavera, em geral, superam os valores normais. Para o cultivo de trigo no sul do
País, os anos de La Niña são os mais favoráveis.
Na zona tradicional de cultivo, Região Sul, que não possui estação seca definida, o
excesso de umidade, cria um ambiente favorável à ocorrência de doenças. Geadas tardias (na
primavera, coincidido com o espigamento do trigo) e precipitações de granizo (localizadas), e
chuvas excessivas no período de colheita, são os principais entraves de natureza climática.
Vendavais, especialmente na primavera, causam acamamento da cultura, dependendo do
estádio de desenvolvimento, podem causar grandes perdas no rendimento da cultura. As
principais doenças que atacam a cultura, nessa zona, são oídio, viroses, ferrugem da folha,
manchas foliares, e giberela (doença de espiga de difícil controle).
Na região tropical, deficiência hídrica e excesso de calor (temperaturas elevadas,
causando esterilidade na espiga) são os principais limitantes. Em termos de sanidade vegetal,
pela dificuldade de controle, a brusone, tanto no sistema de cultivo de sequeiro quanto
irrigado, é a doença mais problemática para a produção de trigo no centro do País.
Objetivou-se, com o Zoneamento Agrícola de Risco Climático, identificar os
municípios aptos e o período de semeadura, para o cultivo, em sistema de sequeiro, do trigo,
com probabilidades de perdas de rendimento de grãos inferiores a 20%, 30% e 40% devido à
ocorrência de eventos meteorológicos adversos. Assim, contribuindo, como ferramenta de
gestão de riscos, para a expansão das áreas agrícolas, redução das perdas de produtividade e
estabilidade da produção desse cereal no País.
Essa identificação foi realizada com a aplicação de um modelo de balanço hídrico
da cultura. Neste modelo são consideradas as exigências hídrica e térmica, duração do ciclo,
fases fenológicas e reserva útil de água dos solos para o cultivo desta espécie, bem como dados
de precipitação pluvial e evapotranspiração de referência de séries, preferencialmente, com 30
anos de dados. Somente em algumas regiões com escassez dessas séries de longa duração,
foram usadas séries com um mínimo de 15 anos de dados diários, chegando a uma totalização
de 3.500 séries pluviométricas aproveitáveis para o trabalho.
O modelo para cálculo do balanço hídrico utilizado no ZARC foi o SARRA (Systeme
d'Analyse Regionale des Risques Agroclimatiques). Este modelo foi usado para se obter as
necessidades hídricas e o Índice de Satisfação da Necessidade de Água para a cultura (ISNA),
que foi definido como a razão entre a evapotranspiração real da cultura (ETr) e
evapotranspiração máxima ou potencial da cultura (Etc.).
Ressalta-se que por se tratar de um modelo agroclimático, parte-se do pressuposto
de que não ocorrerão limitações quanto à fertilidade dos solos ou danos às plantas devido à
ocorrência de plantas daninhas, pragas e doenças.
Para delimitação das áreas aptas ao cultivo do trigo de sequeiro, em condições de
baixo risco, foram adotados os seguintes parâmetros e variáveis:
I. Precipitação Pluvial: Foram utilizadas séries de dados de chuva preferencialmente
com 30 anos de dados. Somente em regiões com escassez de séries de dados de longa duração
foram consideradas séries com um mínimo de 15 anos de dados diários, contabilizando um
total de 3.500 séries pluviométricas.
II. Evapotranspiração de referência (ETo):
A ETo foi utilizada através de médias decendiais calculadas pelo método de
Hargreaves e Samani, previamente adaptado e recalibrado para as condições brasileiras.
III. Coeficiente de cultura (Kc):
As curvas de Kc, conforme modelo conceitual FAO - 56, foram geradas para valores
decendiais, por meio de um modelo bilogístico ajustado a partir de valores de Kc iniciais (0,40),
máximo (1,00) e final (0,40). Os valores decendiais de Kc foram gerados para cada agrupamento
de cultivares, usando-se como referência as Regiões homogêneas de adaptação de cultivares
de trigo. O Kc, utilizado para a determinação da Evapotranspiração Máxima da Cultura (Etc.)
decendial para cada unidade da federação, são apresentados nas tabelas abaixo:
.
Ciclo
(dias)
Decêndios
.
.
1
2
3
4
5
6
7
8
9
.
110
0,4
0,44
0,56
0,74
0,89
0,96
0,98
0,97
0,92
.
120
0,4
0,44
0,55
0,72
0,88
0,95
0,98
0,98
0,96
.
130
0,4
0,44
0,54
0,7
0,86
0,94
0,98
0,99
0,98
.
140
0,4
0,44
0,53
0,69
0,84
0,93
0,97
0,98
0,99
.
150
0,4
0,43
0,52
0,67
0,83
0,92
0,97
0,98
0,99
.
160
0,4
0,43
0,51
0,65
0,81
0,91
0,96
0,98
0,99
.
170
0,4
0,43
0,51
0,64
0,79
0,9
0,96
0,98
0,99
.
Ciclo
(dias)
Decêndios
.
.
10
11
12
13
14
15
16
17
.
110
0,76
0,51
.
120
0,9
0,74
0,5
.
130
0,96
0,89
0,72
0,5
.
140
0,98
0,95
0,87
0,71
0,49
.
150
0,98
0,97
0,94
0,86
0,69
0,49
.
160
0,99
0,98
0,97
0,93
0,84
0,68
0,49
.
170
0,99
0,99
0,98
0,96
0,92
0,83
0,67
0,49
Norte do PR
. Ciclo
(dias)
Decêndio
.
1
2
3
4
5
6
7
8
9
10
11
12
13
. 100
0,40
0,44
0,57
0,76
0,91
0,97
0,98
0,93
0,78
0,51
. 110
0,40
0,44
0,56
0,74
0,89
0,96
0,98
0,97
0,92
0,76
0,51
. 120
0,40
0,44
0,55
0,72
0,88
0,95
0,98
0,98
0,96
0,90
0,74
0,50
. 130
0,40
0,44
0,54
0,70
0,86
0,94
0,98
0,99
0,98
0,96
0,89
0,72
0,50
IV. Temperatura:
Foi considerado o risco de geada foi estimado pela análise da frequência de
ocorrência de temperaturas do ar igual ou menor a 1,0 °C, com base na temperatura do ar em
abrigo meteorológico. O diagnóstico de risco de geada foi considerado em dois decêndios (20
dias) ao redor do espigamento, incluindo o decêndio imediatamente anterior (n-1) e no
decêndio do espigamento (n).
V. Ciclo e Fases fenológicas:
Fase I: Estabelecimento da cultura (semeadura/emergência); Fase II: Crescimento
Vegetativo; Fase III: Espigamento/floração/enchimento de grãos; Fase IV: Maturação. As
cultivares de trigo foram classificadas em três grupos conforme a região homogênea de
adaptação de cultivares:
Região 1:
.
Grupo
Nº médio de dias da emergência à
maturação ponto de colheita
.
Grupo I
£ 120
.
Grupo II
121 - 140
.
Grupo III
> 140
Região 2:
.
Grupo
Nº
médio de
dias
da emergência
à
maturação ponto de colheita
.
Grupo I
£ 110
.
Grupo II
111 - 130
.
Grupo III
> 130
Região 3:
.
Grupo
Nº médio de dias da emergência à maturação
ponto de colheita
.
Grupo I
£ 110
.
Grupo II
111 - 120
.
Grupo III
> 120
VI. Capacidade de Água Disponível (CAD):
A Capacidade de Armazenamento de Água Disponível (CAD) para a cultura da soja
foi estimada com base na profundidade efetiva do sistema radicular (Ze), e a Água Disponível
(AD) nas diferentes classes. Foram considerados 6 classes de solos, AD1, AD2, AD3, AD4, AD5 e
AD6; com capacidade de armazenamento de 24 mm, 32 mm, 42 mm, 55 mm, 72 mm e 95mm,
respectivamente; e uma profundidade efetiva média do sistema radicular (Ze) de 60 cm.
Estas informações foram incorporadas ao modelo de balanço hídrico para a
realização das simulações necessárias para identificação dos períodos favoráveis para a
semeadura. Foram realizadas simulações para 36 períodos de semeadura, espaçados de 10
dias, entre os meses de janeiro a dezembro.
VII. Índice de Satisfação das Necessidades de Água (ISNA):
A partir das simulações foram obtidos os valores médios do ISNA para cada data de
simulação de semeadura. O modelo estimou os índices de satisfação da necessidade de água
(ISNA), definidos como sendo a razão existente entre evapotranspiração real (ETr) e a
evapotranspiração máxima da cultura (Etc.) para cada fase de interesse da cultura e para cada
estação pluviométrica.
Procedeu-se a análise frequencial das séries de resultados anuais para a verificação
da frequência de ocorrência de anos-safra com valores de ISNA abaixo do limite crítico para a
cultura em cada fase de interesse.
O evento adverso fica caracterizado quando o ISNA de uma determinada safra ficou
abaixo do limite crítico. Posteriormente, os valores de ISNA correspondentes aos percentis de
20%, 30% e 40% de risco foram georreferenciados por meio da latitude e longitude e, com a
utilização de um sistema de informações geográficas (SIG), foram espacializados por meio de
um estimador espacial geoestatístico (krigagem ordinária) para a determinação dos mapas
temáticos de risco.
Foi considerado um ISNA ³ 0,6 na Fase I - Estabelecimento da cultura, ISNA ³ 0,45
na Fase III - Espigamento/floração/enchimento de grãos.
VIII. Risco de Excesso Hídrico: O risco de excesso hídrico no final do ciclo na Fase IV
(20 dias final do ciclo) foi calculado pelo total de chuva maior ou igual a 185 mm.
IX. Critérios Auxiliares:
Adicionalmente, como estratégia para melhor posicionamento da cultura, adotou-
se o início e término dos períodos de semeadura dos sistemas de produção de grãos
consolidados em cada zona de produção para definir as delimitações regionais, utilizando
resultados de experimentação conduzida em 144 locais no País, entre 2000 e 2020.
Considerou-se apto para o cultivo do trigo os municípios que apresentaram, em no
mínimo 20% de sua área, com condições climáticas dentro dos critérios considerados.
Notas:
Os resultados do Zarc são gerados considerando um manejo agronômico adequado
para o bom desenvolvimento, crescimento e produtividade da cultura, compatível com as
condições de cada localidade. Falhas ou deficiências de manejo de diversos tipos, desde a
fertilidade do solo até o manejo de pragas e doenças; ou escolha de cultivares inadequados
para o ambiente edafoclimático, podem resultar em perdas graves de produtividade ou agravar
perdas geradas por eventos meteorológicos adversos. Portanto, é indispensável: utilizar
tecnologia de produção adequada para a condição edafoclimática; controlar efetivamente as
plantas daninhas, pragas e doenças durante o cultivo; adotar práticas de manejo e conservação
de solos.
A gestão de riscos de natureza climática na cultura de trigo pode ser melhorada
pela assistência técnica local, via a diluição de riscos, quando são associadas, ao calendário de
semeadura preconizado nas Portarias de ZARC, práticas de manejo de cultivos que contemplem
a rotação de culturas, o escalonamento de épocas de semeadura e a diversificação de
cultivares (com ciclos diferentes) em uma mesma propriedade rural.
As lavouras irrigadas não estão restritas aos períodos de plantio indicados nas
Portarias para sequeiro, cabendo ao interessado observar as indicações: do ZARC específico
para a cultura irrigada (quando houver); ou da Assistência Técnica e Extensão Rural (ATER)
oficial para as condições locais de cada agroecossistema.
Informações detalhadas para a condução de uma lavoura de trigo de sequeiro, da
semeadura à colheita, podem ser encontradas nas Informações Técnicas anuais da Comissão
Brasileira de Pesquisa de Trigo e Triticale, disponíveis em (escolher a versão mais atual,
conforme safra alvo):
https://www.reuniaodetrigo.com.br/
https://static.conferenceplay.com.br/conteudo/arquivo
informacoestecnicastrigotriticalesafra2023-1683736866.pdf
2. TIPOS DE SOLOS APTOS AO CULTIVO
São aptos ao cultivo da cultura no estado as seis classes de água disponível AD1,
AD2, AD3, AD4, AD5 e AD6, que podem ser estimadas por função de pedotransferência em
função dos percentuais granulométricos de areia total, silte e argila, conforme especificado na
Instrução Normativa SPA/MAPA nº 1, de 21 de junho de 2022.
Limite inferior e superior para seis classes de AD a serem utilizadas nas avaliações
de risco de déficit hídrico do Zoneamento Agrícola de Risco Climático.
. Limite
inferior
(mm cm-1)
Classes de AD
Limite
superior
(mm cm-1)
.
0,34
£
AD1
<
0,46
.
0,46
£
AD2
<
0,61
.
0,61
£
AD3
<
0,80
.
0,80
£
AD4
<
1,06
.
1,06
£
AD5
<
1,40
.
1,40
£
AD6
£
1,84*
* amostras de solo com composição granulométrica que eventualmente resulte em
estimativa de AD acima de 1,84 mm cm-1 serão representadas pela classe AD6.
Não são indicadas para o cultivo:
- áreas de preservação permanente, de acordo com a Lei 12.651, de 25 de maio de
2012;
- áreas com solos que apresentam profundidade inferior a 50 cm ou com solos
muito pedregosos, isto é, solos nos quais calhaus e matacões ocupem mais de 15% da massa
e/ou da superfície do terreno.
- áreas que não atendam às determinações da Legislação Ambiental vigente, do
Zoneamento Ecológico Econômico (ZEE) dos estados.
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